quarta-feira, 31 de março de 2010

O BOSQUE DAS BRUXAS

A noite era gélida...
As brisas chegavam ao rosto como tabefes secos...
Uma leve névoa se levantava a poucos palmos do chão e se movia de forma fantasmagórica sobre o lago e por entre as arvores do bosque.
Essas eram antigas, altíssimas e mórbidas...
Não havia restado uma folha sequer nos galhos...
...Que pareciam na escuridão mãos de diversos tamanhos e desenhos, todas ossudas, enrugadas e curvadas para dentro do bosque...
Tais "mãos" eram segundo a população local provenientes de uma lenda já meio esquecida, a mesma que dera o nome ao bosque...
Qualquer um que estivesse ali naquela noite, vendo as volumosas ramificações indo e vindo com o vento, imaginaria realmente (uma angustiante coreografia dessas) dezenas de mãos grotescas e ossudas... Que queriam a todo custo impedir que a luz da lua e das estrelas chegassem ao bosque, mantendo-o assim mergulhado na mais absoluta escuridão....

Não vou me deter, nem nos rangidos altos e abafados (que vinham de vez em vez das copas das arvores) e que deixariam os pelos da nuca de qualquer um em pé ao romperem aquele silêncio irreal;
Não vou me deter, nem nos vultos misteriosos (talvez de animais) que apareciam distantes e velozes cortando a névoa e estimulando a imaginação;
Não vou me deter nem no negro intenso do lago (sem duvida a coisa mais estranha de todas), que o deixava com uma aparência incomoda de vazio, de nada...
Não me deterei, pois a mão de Nicole estava quente e macia enquanto puxava a minha com firmeza... O seu perfume já familiar parecia naquele dia particularmente apetitoso a minhas narinas, sua voz doce e clara, hoje era quase um canto que ecoava nos meus ouvidos...
E suas curvas pecaminosas visíveis mesmo na escuridão, me mantinham concentrados exclusivamente nela... Eu me sentia enfeitiçado.

Bom, Nicole era minha namorada e era também a gótica mais linda da cidade.
Na nossa relação sempre fui o curioso e ela sempre foi disposta a satisfazer tal curiosidade... Já me presenteara com literatura de rituais de magia negra, me levado pra "cachaçadas" dela e de seus amigos em cemitérios, missas supostamente satanistas etc...
Mas a experiência de agora seria a mais intensa; ela havia me trazido para perdermos a virgindade em pleno bosque das bruxas, na alta madruga...
Não pensem que eu era um pervertido aspirante a adorador de satã, ou coisa parecida; qualquer conhecido meu me definiria como um jovem extrovertido e só, nada além , tudo que fizera até ali fora só para agradar Nicole.
Confesso que, ela sim era sombria a olhos de estranhos; e por vezes, aos meus, tola com essa natureza forçada de seus atos e seu estilo, mas também por vezes era instigante, interessante e realmente sexy, havia algo genuinamente "bruxo e diferente" nela.
E eu percebia esse "diferente" no contraste...
Da frieza de seu olhar escuro, com o calor de suas coxas por entre as minhas.
De seu jeito sombrio e indiferente declamando juras doces e apaixonadas pra mim
Ou ainda quando um carinho, com as suas unhas negras e afiadas, rasgava a pele e deixava um ralo fio de sangue... Que ela vinha lamber suavemente com sua língua úmida...
Nessas horas... Eu sentia a adrenalina de um equilibrista!
Tentando caminhar na linha imaginaria que delimita o certo e o errado, o saudável e o insano, o lúcido e o louco, o Deus e o diabo...
(No fim a morbidez de Nicole fazia-me sentir vivo, fazia-me querer experimentar a vida e improvisar um mundo...)
Mas voltando ao bosque...

Ela me guiou para a parte mais escura e densa, para depois dos troncos altos e negros.
E começou a dizer, enquanto caminhava, como se estivesse se lembrando de algo que ocorreu há muito tempo atrás:
---Segundo a lenda do bosque, Louis (que cabeça a minha! Esqueci de dizer, me chamo Louis...), esse espaço aqui serviu, a muito... Muuuíto tempo atrás, para a queima de bruxas pela santa inquisição...
Ouvi quieto, até ela fazer uma pausa teatral, pra respirar solenemente e continuar no tom longiguo:
--- Depois de queimadas, as almas imortais das feiticeiras teriam ficado aprisionadas, em tudo que há aqui... hum! Até hoje, segundo a lenda, elas estão no solo, nas águas, nas arvores, etc... Esperando e esperando (E só ressurgirão com sacrifícios sagrados feitos de "bla, bla" anos em "bla, bla" horas, em "bla, bla" estações, com bla, bla tipos de materiais, e bla bla... Pulemos essa parte, a história detalhada é muito comprida.... Basta dizer que litros de sangue puro precisam alimentar o ímpeto das bruxas para que elas voltem)"
---Já sei dessa história Nicole, nos seus mínimos detalhes, ela é bem "interessante"--- finalizei frisando a ultima palavra com ironia.
Ai já estávamos bem próximos do lago, ao terminar de sorrir senti a terra fraca e morta ceder vários centímetros sob meus pés, nervoso continuei, e o solo ia cedendo cada vez mais, depois de mais alguns passos ofeguei alto.
Nicole virou para mim com seu olhar misto e indecifrável viu meus pés afundados e riu.
---Já tá com medo?! Vem me segue... --- o fiz e ao dar mais um passo o chão em que pisava já era duro---Cê tá comigo, relaxa... E respeita também! Isso aqui não é brincadeirinha”.
Eu fiquei calado rindo por dentro (dessa atuação, como se ela mandasse no bosque) e perguntei pra mim mesmo o que Nicole tinha de tão atraente, parecia que ao seu lado eu não tinha que pensar nunca na morte, pois já estava com ela... Já a beijava, a fazia ofegar e declarava-lhe meu amor quase todo o dia....
Demos meia lua no lago, em silêncio, mas com a minha ansiedade pulsando e com a minha adrenalina crescendo, ai ela parou e estávamos o mais longe possível da cidade. Pareciamos longe do mundo e do século 21...
Notei que Nicole começou a respirar irregularmente enquanto mirava o lago. "Olha, olha ela também esta nervosa!", disse sorrindo.
Ela se virou e com os olhos vidrados me encarando e começou a explicar sua história em um sussurro sombrio... Ouvi imóvel “Aqui nesse chão onde nós pisamos, minha mãe foi degolada... Eu tinha quatro anos mal me lembro do papai dizendo que ela tava no céu, mas soube que ela veio pra um piquenique com as amigas da faculdade... Encontraram os corpos de todas sem uma gota de sangue no fundo desse lago...”
Eu soltei um assovio.
---Você tem pena de mim Louis?--- perguntou ela fingindo o tom de uma criança amedrontada tocando com sua mão extremamente fria no meu rosto, me deixando atônito, para então do nada rir, quase gargalhar--- Não precisa, essa morte piegas (e digna de romance policial de banca de revista) da minha mãe, só me deixa mais excitada.
Ela pegou minha mão com as suas, começando a tremer
---Pensar que sou uma jovem indefesa--- encostou-a em seu seio direito, respirando mais irregular ---, em um bosque de trevas--- eu massageei-a, ouvi seu ofegar de prazer em tom crescente--- predestinada a morrer da mesma forma que sua antecessora--- ela parecia estar prestes a ter um orgasmo só em pensar na fantasia, se aproximou de mim e sussurrou esfregando o seu corpo no meu--- E ainda transar, não é demais?! Heinn?"
Eu sorri e disse que ela me dava medo...
"Eu te amo Louis...", eu olhei para ela surpreso com sua declaração "e quero ser tua"...

Ela colocou um canivete de metal maciço na minha mão, eu não entendi, ela sorriu... "Eu vou ser a mamãe e você é um doente qualquer... Com sede de sangue, fome de carnes... E desejoso de um corpo que possa lhe dar tudo isso, junto!”.
Eu ri alto por dentro, comecei o joguinho...
Sorrindo segurei o canivete com uma mão e com a outra a agarrei pelo pescoço, a puxei rápido para perto... Cheirei a nuca com violência, ouvindo a atuação convincente através de suas suplicas pra que eu parasse, empurrei-a no chão enlamaçado e me ajoelhei a sua frente, puxei-lhe as pernas brancas e expostas pela curta saia para alem do meu quadril, seus olhos encontraram os meus... Seu sorriso pecaminoso e o seu olhar brilhante implorava pra que eu continuasse....
Encostei o corte do canivete na sua perna, apertando-a com minha outra mão, aquela carne mesmo suja de lama, era macia, aveludada, quente... Brinquei escorregando o canivete ( lado cego) até sua coxa, então o virei, cortei sua saia toda só de uma vez e joguei a peça no lago.
Guardei o canivete no bolso e virei Nicole de costas, minhas mãos escorregaram apertadas pelas pernas...
Coxas...
Nádegas...
Costas...
E de lá puxei os cabelos...
Cheirando o seu perfume sussurrei no ouvido "Não grite bruxinha! Se não eu te mato...".
Ela começou a se mover com força (esfregando-se em mim e, talvez propositalmente, arrebentando o botão da minha calça)...
E gritar alto assim que minhas mãos começaram a passear firmes em suas curvas, e meu quadril com o dela viraram encaixes moveis.
Seus gritos misturados com nossos guinchos e gemidos, meus tapas e apertões, meus carinhos, nossos suspiros, o contato da nossa pele, a lama entre nossos corpos, o vento seco, a névoa leve, os galhos indo e vindo, nossos corpos vindo e indo, a batida de nossos corações... Tudo em um segundo tão intenso e no outro tudo, tudo se dissolveu na saliva do beijo mais faminto e longo que ela foi capaz de me dar....
A mão dela foi abaixando minha ultima peça de roupa,
Eu então me lembrei...
Sai de cima dela rapidamente.
Nicole levantou enlamaçada, desesperada.
---Que foi Louis, te machuquei?!
Eu angustiado levantei minha calça e procurava a camisa.
---Perdão Nicole!--- disse sem lhe olhar nos seus olhos.
---Amor!--- chamou ela desesperada--- Que foi eu não fiz algo direito? Eu disse que não ia saber fazer as preliminares...
Eu ouvi aquela frase tão infantil, me voltei para ela, linda... trágica e cômica, a pele de veludo branco e todo enlamaçado, o corpo coberto só por uma calcinha... Aproximei-me e a abracei forte.
---Querida! Você deve permanecer virgem--- expliquei enquanto sentia seus mamilos e seus seios macios no meu peito nu--- só assim as princesas das trevas voltarão ao seu reino!
---O que? Péra ai! Para com essa gracinha Lou...
Enfiei-lhe o canivete na garganta, agüentei os espasmos silenciosos do corpo...
Em um movimento rasguei toda a carne do pescoço. Antes de lhe jogar no lago certifiquei-me de que todo o seu sangue, de que cada gota umedeceu a terra do bosque.
Depois que o fiz, fiquei de pé vendo-a afundar na escuridão do lago, um vento forte jogou a camisa que antes havia procurado, na minha mão, ajoelhei-me, orei as almas e agradeci por permitirem que eu cumprisse mais uma vez minha missão ao me darem forças pra eu ir contra meus ímpetos e sentimentos.
Fui embora e senti o bosque tremendo, as arvores caindo atrás de mim, a névoa fria e úmida virando fumaça quente e seca com um cheiro de carne queimada. Apressei-me um pouco, o sangue de Nicole transbordara o cálice do tributo, meu trabalho começado com a mãe dela finalmente terminara, as almas já não estavam mais aprisionadas...



autor: MARCO ANTONIO